segunda-feira, 20 de abril de 2015

Love Doll

Você já sentiu curiosidade em experimentar algo novo, que muitos considerariam "bizarro"? Aposto que sim, todos os humanos já sentiram isso. Grande parte das vezes desistem desse pequeno desejo simplesmente por medo, o que é aceitável, afinal, o medo move os humanos, não?
Uma vez eu resolvi desobedecer meu medo, quando a minha curiosidade venceu a batalha. Foi no ano de 2013, eu tinha 17 anos, e estava apaixonada por um amigo meu, Marcus, que estava fazendo 22 naquele mês de Abril. Marcus morava sozinho em um apartamento alugado por seus pais. Não posso dizer que ele era rico, mas os pais dele eram. Naquele ano, o presente de aniversário dele veio em forma de dinheiro. Muito dinheiro.
Era uma sexta-feira, em uma pequena festa que duraria até domingo, se alguns de nossos amigos fossem mais cuidadosos e não tivessem se enchido de álcool ao ponto de precisarem ir para casa. Ficamos lá só eu e Marcus, vendo vídeos na internet enquanto eu procurava uma forma de esquentar o clima, até que passamos por um vídeo que chamou atenção, uma propaganda japonesa que mostrava bonecas perfeitas, idênticas a humanas, lindas, chamadas de Love Doll. O vídeo mostrava o material do qual as bonecas eram feitas, que imitava perfeitamente o toque da pele humana, e mostrava como todas as juntas e detalhes eram reproduzidos e funcionais. As bonecas eram feitas principalmente como brinquedos sexuais, embora fossem tão realistas que poderiam ter qualquer outra função. Olhei para Marcus e disse que elas dariam um bom enfeite na casa dele, que estava sempre vazia, e ele concordou, dizendo que compraria uma. Eu ri, não levei ele a sério no momento, mas ele estava falando sério, e passamos a noite tentando descobrir como conseguir uma daquelas coisas.
Depois de navegar por muitos sites misteriosos, e ver muitas ofertas claramente falsas, achamos uma que parecia ser confiável, de uma loja norte-americana que importava as bonecas do Japão. Marcus não pensou duas vezes antes de encomendar a boneca por 20 mil reais. Eu me assustei com a facilidade que ele teve em gastar tanto dinheiro, não era comum ele comprar coisas tão caras, mas ele podia. A boneca encomendada era linda, com um rosto jovem, cabelos negros bem cumpridos, uma pele clara e um busto maior do que o normal. Eu me senti animada com aquilo, embora não fosse para mim, eu poderia ver a boneca na casa dele assim que ela chegasse, mas o tempo que ela levou para chegar foi bem longo, então eu só pude vê-la em outubro daquele ano. Assim que ela chegou, Marcus me ligou, dizendo que estava me esperando para abrir a caixa.
Nesses meses que haviam passado, eu havia mudado um pouco, deixando minha curiosidade vencer meu medo em muitos pontos. Eu ainda estava apaixonada por Marcus, mas ele não sabia disso, e ao ver aquela boneca cara a cara, eu percebia o quão humana ela era, e sentia ciúmes, mesmo sabendo que ela não poderia fazer nada. Ela era um brinquedo, e isso me irritava. Eu perguntei a Marcus o que ele fazia com a boneca, e ele riu, dizendo que estava deixando ela como enfeite na sala, e que era muito estranho ver a boneca ali parada na cadeira, parecendo uma pessoa. Bem, ela podia parecer real, e até mesmo ter a textura bem parecida com a de um humano, mas quando se mexia nela, dava para notar a diferença. As juntas dela eram mais rígidas, o cabelo era sintético, os olhos de plástico, e o que deveriam ser os ossos eram macios. Mas era algo legal de se abraçar, e eu não queria soltá-la. Marcus estranhou meu apego pela boneca, e nomeamos ela de Ne. Não teve nenhum motivo especial para se escolher esse nome, apenas achamos que fosse ficar bem nela. Marcus então passou a mão no rosto de Ne, dizendo que ela parecia ser útil para outra coisa. Eu o encarei, dizendo para que ele não tocasse nela. Por algum motivo, eu estava com ciúmes dos dois. Marcus riu da minha reação, dizendo que a boneca era dele, e que ele decidia o que fazer ou não com ela. Bem, era justo, já que ele gastou tanto dinheiro nela...
No dia seguinte, eu recebi uma mensagem dele, com uma foto da boneca deitada na cama dele, com o corpo debaixo das cobertas, e um texto dizendo "Ela não é tão humana quanto parece". Eu fui tomada por uma onda de fúria, e fui o mais rápido que pude para a casa dele. Ele pareceu surpreso ao abrir a porta para mim, e eu perguntei se ele havia dormido com Ne. Ele me respondeu dizendo "ela não foi feita para isso?", e eu lhe dei um tapa, dizendo que eu havia mandado não tocar na boneca. Ele ficou confuso, me perguntando por que eu estava tão brava, e eu fui até o quarto, encontrando Ne seminua, olhando para a porta com uma expressão mais triste do que o normal. Eu peguei sua mão, e perguntei se Marcus havia machucado ela. Ela obviamente não me respondeu, era apenas um brinquedo, mas Marcus ficou me encarando com um olhar amedrontado, perguntando se eu estava bem. Eu puxei Ne, colocando-a sentada na cama, e vi sua boca meio aberta, com uma expressão curiosa. Então me toquei do que estava fazendo, e pedi desculpas a Marcus, envergonhada, e saí correndo de lá. Eu não sabia o que estava pensando, nem ao menos o que eu senti.
Naquela noite, eu estava deitada em minha cama, pensando no ocorrido, quando recebo outra mensagem de Marcus, dizendo que estava brincando comigo, e que seria muito estranho dormir com uma boneca, e me perguntando se eu me importava tanto assim com aquilo. Eu respondi que sim, embora não soubesse o porquê, e ele disse que me daria Ne de presente. No dia seguinte, Marcus a levou de carro para minha casa, colocando-a em meu quarto, em uma cadeira perto da minha cama. Quando meus pais chegaram em casa e a viram lá, me perguntaram o que era, assustados com o realismo, e eu os acalmei dizendo que era apenas um enfeite. Mas Ne não era um enfeite, ela era real para mim. Eu a coloquei deitada em minha cama, e dormia todas as noites abraçada com ela, limpando ela todos os dias, mexendo em seu cabelo, brincando com suas juntas, e passei dias trancada no quarto, passando o tempo com ela.
Meus pais estavam com medo do meu comportamento, e me mandaram abandonar Ne. Eu não podia abandoná-la, como ela se sentiria? Então meu pai a tirou do meu quarto, levando-a para o sótão, e me proibindo de ir buscá-la. Eu fui tomada por um medo e ódio fora do normal, e deitei na minha cama sozinha, abafando meus gritos com o travesseiro. Na manhã seguinte, eu acordei surpresa, vendo Ne me abraçando, como normalmente acontecia. Eu fechei os olhos me perguntando como ela chegou ali, então peguei na mão dela sentindo algo estranho, uma faca. Meu medo, naquele momento, foi a coisa mais assustadora que eu já senti, e abafei meu susto, levantando o braço da boneca e me afastando da cama. A mão de Ne estava suja com sangue. Gritei para chamar o meu pai, mas ele não respondia, então corri até o quarto dele, em desespero, encontrando o corpo dele e da minha mãe, esfaqueados, e uma frase escrita a sangue na parede dizendo "bonecas também sentem". Logo fiquei desesperada, tanto pelo fato de ver meus pais mortos quanto pelo fato de não saber quem fez aquilo. Ne era apenas uma boneca, não era? Peguei meu celular e liguei para Marcus, chorando, mandando ele ir na minha casa. Ele chegou e me viu chorando na sala, perguntando o que aconteceu, e eu lhe perguntei "você acha que Ne tem sentimentos?". Marcus me encarou, e disse, com medo, que Ne era apenas uma boneca, e me perguntou o que estava acontecendo, então o levei para o quarto dos meus pais, onde ele deu um grito ao ver os corpos, seu último grito, enquanto eu o esfaqueava e via o sangue escorrendo pela minha mão. Então fui para a cozinha, tirei o tubo que levava gás ao fogão e o puxei até a porta do quarto. Tranquei a porta e abracei Ne, enquanto pensava em quanto tempo levaria para o gás me sufocar.

Escrito por Luã Xavier

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